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O MWC 2019 foi o retrato do que podemos esperar ver nos próximos anos: o crescimento da lacuna tecnológica entre países desenvolvidos e em desenvolvimento

Faz seis anos que faço a cobertura do Mobile World Congress (MWC) e nunca vi a feira de Barcelona tão polarizada. De um lado, tivemos toda a pressão da indústria mobile para o avanço das redes 5G, do outro, a ressurreição dos celulares de baixo custo, mas com acesso à Internet. Assim, em 2019, o MWC foi o retrato perfeito daquilo que podemos esperar ver nos próximos anos: o crescimento da lacuna tecnológica entre países desenvolvidos e países em desenvolvimento.

A rede 5G e o monopólio da Qualcomm

No dia 23 de fevereiro, a Oppo abriu o MWC 2019 com o anúncio de novas tecnologias de câmera e smartphones 5G. No dia seguinte, foi a vez da Xiaomi, da Huawei e da LG lançarem seus smartphones com suporte à Internet de 5ª geração, respectivamente, Mi Mix 3 5G, Huawei X e LG V50 ThinQ.

Com a abertura da feira, no dia 25 de fevereiro, praticamente tudo envolvia 5G nos estandes das empresas, em quase todos os pavilhões. Porém, nada que se comparece ao estande da Qualcomm e de operadoras como Vodafone e NTT DoCoMo.

Contudo, o estande da Qualcomm é o que chamou mais a atenção neste sentido, o motivo é simples: praticamente todas as parcerias da gigante de processadores estavam presentes com displays mostrando aparelhos com suporte para a rede 5G. Entre elas, tínhamos a OnePlus, a Oppo, a Xiaomi, a Sony, a LG e a Samsung. Com isso, também ficou bastante claro que a Qualcomm está monopolizando este mercado, no qual temos pequenas exceções como a Huawei e o processador Kirin. O que faz como que, claramente, o espaço da MediaTek venha diminuindo ano após ano.

Porém, apesar de tudo isso, o 5G não estava presente na feira, apenas protótipos e simuladores. Na maioria dos casos, representado por simuladores de jogos que, de acordo com os expositores, fazia mais sentido mostrar visto que ilustram uma das grandes aplicações da nova rede de internet móvel, ou seja, a velocidade de carregamento de dados em games online.

A Xiaomi subiu para a séria A da indústria mobile
Em apenas duas ocasiões a Xiaomi anunciou smartphones em grandes eventos durante a feira de Barcelona. Uma delas foi em 2016, quando Hugo Barra fez o lançamento o Mi 5, a segunda este ano, quando Donovan Sung apresentou o Mi Mix 3 5G e o Mi 9. A fabricante chinesa, que conta com uma loja na capital espanhola, já faz parte da série A do MWC, pois passou a contar com um estande no pavilhão 3, considerado por muitos o mais importante da feira.

Isso não é bem uma surpresa, visto que a Xiaomi é a quarta fabricante com maior participação no mercado mobile global. E, mesmo tendo um estande bem menor do que as concorrentes Samsung e Huawei, nem por isso era menos requisitadas entre os participantes do evento.

A Samsung passou batida pelo MWC 2019
Além do 5G e da Xiaomi, o que mais me chamou a atenção foi mesmo a ausência da Samsung. Não que a empresa não estivesse presente, mas o fato de ter lançado a linha Galaxy S10 e o smartphone dobrável Galaxy Fold cinco dias antes do MWC, em um mega evento em São Francisco, fez com que nada realmente chamasse a atenção para o seu estande. Aliás, essa foi a primeira vez, em seis anos, que eu não pisei no espaço da Samsung durante a feira.

Além disso, a Huawei recebeu todas as atenções quando o assunto foi smartphone dobrável, ofuscando a luz do Galaxy Fold. Contudo, assim como o dobrável da Samsung, o Huawei X também estava perto dos olhos, mas longe das mãos, guardado por uma redoma de vidro, quase como a Monalisa, de Leonardo da Vinci, no Museu do Louvre.

Porém, o fato da Samsung não precisar de tanta atenção da mídia, fez com que o lado B da feira tivesse mais espaço.

O lado B do MWC 2019
A ascensão do KaiOS puxada pelo Google [Assistente]

Parece mentira, mas no ano em que a rede 5G é destaque no MWC, os feature phones também roubaram a cena. Um dos motivos para tanto: a introdução do botão dedicado ao Google Assistente nestes dispositivos.

Já faz pelo menos três anos que os celulares de baixo custo passaram a oferecer conexão à Internet. Porém, há cerca de um ano, aparelhos rodando com o sistema operacional KaiOS estão se tornando mais populares. Um dos motivos disso é que o Google investiu 22 milhões de dólares na empresa desenvolvedora do software KaiOS e, mesmo sendo um concorrente em potencial para o Android, a gigante das buscas celebrou a parceria durante o MWC 2019 ao anunciar a chegada oficial do botão dedicado ao Google Assistente aos “smart feature phones”, como são chamados agora estes aparelhos.

Para se ter uma ideia, no estande da Nokia, os celulares de baixo custo com Internet que levam o nome da marca estavam ao lado do Nokia 9 PureView, o carro-chefe da HMD para o primeiro semestre de 2019. Também estavam no estande da Energizer e demais fabricantes da categoria.

No Brasil, a comercialização destes aparelhos rodando com KaiOS se dará, inicialmente, através da Positivo e, depois, através da SEMP TCL.

MWC 2019: “Lado B Lado A”
Em 1999, a banda “O Rappa” lançou o álbum “Lado B Lado A”, considerado pela mídia especializada como o “discurso que reverberava as injustiças sociais cometidas cotidianamente nas periferias do Rio de Janeiro do fim do Século XX”. E, muito provavelmente de forma inconsciente, a música “Lado B Lado A” ficou na minha cabeça durante todo o MWC 2019.

Para uma jornalista latino-americana, era quase impossível não perceber a distância digital se ampliando entre países desenvolvidos e em desenvolvimento. Isso porque, apesar do 5G ainda estar em construção mesmo em países desenvolvidos, o potencial de crescimento que esta tecnologia irá gerar é muito superior em relação ao que vivenciamos na transição do 3G para o 4G. Desta forma, como a construção desta rede ainda está na fase inicial na América do Sul, corremos o risco de ficar ainda mais atrasados no quesito ciência e tecnologia em relação à América do Norte, Europa e Ásia.

Mas por que o 5G é tão importante para o desenvolvimento tecnológico? Não se trata apenas da velocidade da Internet, mas naquilo que o 5G irá permitir fazer por causa do tempo de latência infinitamente menor. Como oferecer resposta em tempo real para que robôs sejam capazes de realizar uma cirurgia, ou para que carros autônomos possam dar uma resposta rápida para evitar colisões ou acidentes mais graves. Em outras palavras, o 5G irá desbloquear a Internet das Coisas (IoT), além disso, irá permitir avanços na área de Inteligência Artificial (AI).

Sendo assim, levando em consideração que estamos em 2019 e que a previsão de venda dos primeiros pacotes comerciais de 5G possam chegar ao Brasil por volta do final de 2023, seres humanos estarão sendo enviados para colonizar Marte (o que deve acontecer em 2024, de acordo com Elon Musk) antes mesmo de você ver o símbolo do 5G na barra de status do seu smartphone. E isso, com certeza, irá aumentar o lacuna tecnológica entre a América Latina e o resto do mundo desenvolvido.

Aliás, é essa brecha tecnológica que ainda nos permite falar de redes 5G e smart feature phones em uma das maiores feiras da indústria mobile em pleno 2019. Porém, isso também levanta a pergunta de como a América Latina estará representada no Mobile World Congress de 2023, por exemplo. Meu palpite é que estaremos falando sobre os primeiros modelos de smartphones com suporte 5G chegando ao mercado brasileiro. Qual é o seu?

fonte: Olhar Digital